segunda-feira, abril 16, 2018

A vida da Virgínia

Eu bem peço a Deus que me leve, mas não há maneira. A Virgínia tem mais de oitenta anos. Nem sei bem a sua idade. Encara a vida com alegria. Mas acha que já cá não anda a fazer nada. Anda de moleta e de braço dado à empregada. Vai fazendo a sopinha e pouco mais. Lá vai rezando, diz-me, mas distrai-se a toda a hora. Às vezes também adormece e quando acorda tem de voltar ao início porque já não sabe em que parte da oração ia. Diz-me que mistura as orações com as panelas e não devia. Por isso pede constantemente a Deus que a leve, mas não há maneira. O que a Virgínia não sabe é que, mesmo sem dar conta, ela entrega a sua vida, com a mesma constância, a Deus. Faz do seu dia uma oração quase constante. Simples. Sem jeito. Esta última palavra é da sua autoria. Diz que não tem jeito. Por isso não sabe o que anda cá a fazer. Gosta muito de rezar, mas não reza como devia, diz. E eu fico imaginando o rosto de Deus a sorrir com a Virgínia!

terça-feira, abril 10, 2018

E se os padres fizessem greve?

Li há tempos que um pároco em Itália afixara um cartaz na porta da Igreja a dizer algo mais ou menos do tipo "A missa foi suspensa por falta de fiéis. Padre tal estará disponível quando for chamado". A informação foi publicada num jornal e alvo de muita conversa, sobretudo nas redes sociais. 
Pessoalmente não me parece que a sua opção tenha sido a mais indicada. Um padre, à partida e como servo de Deus, deveria também ter a disponibilidade de coração para qualquer necessidade do foro da fé, mesmo quando à sua frente está um número reduzido de fiéis. No entanto, com a carência de sacerdotes, com as notícias que nos vão dando conta da sua debandada, das depressões ou similares na vida de tantos sacerdotes, o assunto merece a atenção de todos aqueles que se interessam pela Igreja.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova. 
Qualquer dia é bem possível que também os padres comecem a fazer greve para exigir que a vocação que abraçaram volte a ser a vocação sacerdotal.

sexta-feira, abril 06, 2018

mais viver [poema 181]

Soube que tenho pés desde que minha mãe mos deu
Aprendi a usá-los para andar, com o peso do que sou
Desde esse momento em que o mundo nasceu
Uso cada mão para escalar fora de mim. Cresço para o céu,
sem lhe saber a cor. O porquê da dor.
Menos ainda como estou. Para onde vou e quando vou
partir

Tenho pés e mãos. Tenho muitas outras mãos
Tenho muito mais do que sei. Ou alguma vez sonhei
Tenho a certeza de sentir. Além da vida que se tem
Existe uma outra vida mais além, isso eu sei
bem

quarta-feira, abril 04, 2018

sondagem "best post" 2016

Depois de ler as vossas opiniões, e adicionar-lhe a minha opinião, vamos colocar à votação os textos/prosa que parecem os melhores 10 do ano 2016, para, através da sondagem afixada, podermos apurar os melhores três. Se quiseres lê-los de novo, como é habitual, tens o link respectivo abaixo da sondagem. Também podes justificar as tuas opções. 
Apresentamos ainda os resultados da sondagem que apurou os melhores textos de 2017 com a vossa ajuda.


sábado, março 31, 2018

Amontoado de cruzes

Ontem, quando vinha da cerimónia da tarde, a tarde de sexta-feira santa, tropecei num pequeno pedaço de madeira em forma de cruz. Deve ter sido alguma criança da catequese ou algum dos que fazem parte da encenação da via-sacra que o deixaram cair. Na verdade, apesar de quase ter caído, não foi bem um tropeção. Foi mais um pontapé. Sim, sem querer dei-lhe um pontapé que atirou aquele pedaço de madeira para longe. Olhei-o como se fosse uma pedra preciosa e recolhi-o no bolso. Depois levei-o comigo, para casa, afim de poder perguntar a quem pertencia. Mas ao subir as dezenas de escadas para o local onde moro, o bolso pesava-me. Pensei que eram as chaves, mas depois de as meter na ranhura da fechadura, o peso continuava o mesmo. Só podia ser a cruz que encontrara na rua, que atirara para longe e que recolhera de novo. Chegado ao meu quarto, pousei-a em cima da cama. Vou dormir sobre ela. É que nesta Quaresma e nesta Semana Santa tenho encontrado cruzes por todo o lado, de vários feitios, pesos, medidas, e materiais. Tenho-as amontado na cama. Vou adormecer para acordar com elas, e amanhã vou celebrar o Senhor que está vivo para me carregar estas cruzes. 

Uma Santa Páscoa, com os olhos na Ressurreição, para todos

sábado, março 24, 2018

rever Confessionário Dum Padre em 2016

Como informámos, propomos agora que se faça uma selecção dos textos/prosa publicado em 2016. Recordamos que é uma forma de revermos textos, pensarmos de novo, e ajudarmos este autor do blogue a verificar caminhos. O que se pede é que, para já, indiquem os textos que consideram como os melhores, os mais tocantes ou interessantes. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Posteriormente, colocaremos os melhores a votação. Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. 
Agradeço, desde já, a colaboração. 

Nota que os poemas não entram nesta sondagem.
Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, 2014 e 2017 clique AQUI

Janeiro

Fevereiro

Deus resolve-nos a vida

A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima

Os ruídos e silêncios da missa


Março

Falou-lhe na comunhão espiritual

Sair da ideologia do sistema


Abril

Tanto e tão pouco

As partilhas da D. Amélia

Não estar agarrado ao meu sacerdócio


Maio

Uma conversa de acolhimento e imposições

O senhor padre está aqui para servir


Junho

A justiça de Deus


Julho

Baptismos ajeitados

Pobres de rua

Não quero as tuas cruzes


Agosto

O padre tem de saber perdoar

Atentados ou sublimados


Setembro

José, de personagem secundária a modelo principal

Padres habituados a ser clericais

cancro da mãe à porta

Padres que não sabem que caminham


Outubro

Os filhos que às vezes são esquecidos

Nós e vós


Novembro

Perder o que se não tem

Padre com fé

Como serão os funerais quando não houver padres?


Dezembro

A Igreja que se tinha de afastar do mundo

Encostadas ao meu peito

sábado, março 17, 2018

Sabemos pouco da vida

Sabemos muito pouco da vida. O destino precede-nos como a sombra que caminha à nossa frente. O mundo domina-nos. Não somos nem o seu dono nem o patrão que lhe paga o salário. Somos o seu empregado. Dizemos que nos entregamos nas mãos de Deus, mas não lhe conhecemos o tamanho, a cor, as rugas, os calos e o calor que delas imana. Dizemo-lo porque a vida nos ultrapassa e não sabemos como a dominar. Vamos vivendo como se não morrêssemos. Como se estar aqui fosse habitar uma selva onde se sobrevive a pensar na hora em que somos apanhados numa armadilha. 
E alguém é capaz de perguntar se também os padres não sabem da vida quando têm uma ligação especial ao outro lado da vida. Não sei se têm ou não uma ligação especial com esse lado. Se têm explicações da fé para a vida. Apenas posso falar por mim. O que me parece é que pouco perguntamos da vida e pouco sabemos dela. Vivemos. Uns de forma mais consciente ou consistente, e outros vão andando sem saber porquê. Pessoalmente gostava de entrar nas entranhas mais profundas de Deus para perceber esse porquê. Para entender o que não entendo da vida. Também eu me entrego nas suas mãos. Mas preferia entregar-me ao seu coração.

quarta-feira, março 14, 2018

Plantar pessoas [poema 179]

Pensa o mundo como chão
Caído entre as várzeas do caminho
Planta aí teu corpo, o teu ser
Adormece pela manhã que já acordou
E nasce no meio do giestal
Deixa que a estrada te percorra
Encarnada, a sangrar por ti
É tudo muito estranho visto daqui

Amanha é tempo de plantar pessoas

terça-feira, março 13, 2018

salmos [poema 178]

Entrei aos solavancos pelo meio das palavras
Mais por dentro delas que entre elas, não sei
Mais como quem navega sem pousar na água
E não como quem nada como peixe debaixo dela,

É dessa água que falo e que fala e que bebo
Porque dá vida e me tira a vida porque me afoga

Entrei nuns versos que são salmos
Numa língua que não conheço mas sei,
Entrei numa Palavra que é alguém
Que quero conhecer e não sei se sei

Vou continuar a entrar como se amanhã não fosse
Mais do que a hora em que estou contigo em ti