quarta-feira, janeiro 17, 2018

Esta dor que não me consome

Hoje não quero saber se me dói alguma parte do corpo ou da alma. Enquanto fumo o último cigarro da noite, à janela que dá para as luzes da igreja, deixo que o tempo apenas passe por mim como o vento numa manhã de praia que avizinha o sol. Geralmente o tabaco ocupa aquela parte da meditação que faço, rabugento com o tempo, para me entregar a ele. Mas hoje quero que ele passe por mim, me cumprimente e se despeça no mesmo instante. É que, às vezes, damos tanta importância ao tempo que nos sobra que não damos conta do sol que desponta cada dia ao amanhecer. Sei que há algo de mim, neste corpo entregue a Deus, que precisa de algo mais do que o tempo. Mas hoje não quero mais pensar nisso. Vou apagar o cigarro, e deixar que as cinzas voem para longe. Lá, onde só eu e Deus daremos as mãos. Sorrio e digo. Bem-haja, Senhor meu Deus, que és tão generoso em mim, mesmo quando permites que uma dor perturbe a nossa amizade. Eu sei que há algo em nós que não se prova mas se sabe, como o sal que não se vê, mas que tempera o que comemos.

sexta-feira, janeiro 12, 2018

O matrimónio é coisa demasiado séria

Gostava de chamar José e Maria aos dois jovens que acabaram de sair do cartório paroquial depois de marcarem o matrimónio para a hora tal do dia tal. Gostava de lhes dar esse nome por analogia com a sagrada família de Nazaré, mas não me sinto no direito de estabelecer a comparação, sobretudo porque nem um nem o outro me pareceram suficientemente esclarecidos quanto a Deus ou quanto ao passo que querem dar. O diálogo foi franco e aberto. Tão franco e aberto que, ao final, me pareceu estar a oferecer um sacramento que nunca será entendido como tal. Também lhes falei de coisas como o Curso de Preparação para o Matrimónio ou a nulidade do matrimónio. Sobre este último, o interesse destes jovens veio ao de cima com rubores acrescidos. Sobre o referido curso, senti que lhes era um fardo que não pretendiam, embora tivessem de o cumprir. Estavam mais preocupados com pormenores cerimoniais, a beleza do espaço e da animação, os copos e bebes e as horas do casamento. Despedi-me deles com uma sensação estranha, uma sensação que já não é de hoje, mas de muitas outras ocasiões em que há algo que não entendemos mas desconfiamos. Vou rezar por eles esta tarde na Eucaristia.

terça-feira, janeiro 09, 2018

casa [poema 167]

E a casa cai na enxurrada
Na lama jaz, nela é nada.
É depois pisada, toda calcada,
Debicada por quem passa

Por toda a passarada

E a casa se faz estrada
para quem passa.

Até para a passarada

sábado, janeiro 06, 2018

A menina que eu chamaria de Felicidade

Já não se usa muito o termo “menina”, mas eu ouso usá-lo para falar da menina Felicidade. É uma senhora com idade para ser um pouco mais que minha mãe. Enviuvou há muito. Não vive sozinha, mas vive com as suas maleitas como se existisse sozinha nesse mundo. A única filha morreu há duas dezenas de anos com a doença que é redobrada constantemente nos sinos das nossas igrejas, o cancro. Ela própria sobreviveu a esse maldito pesar na própria pele. Foi, ao que me dizem, uma força da natureza ou uma força de Deus nos muitos embates que a sua vida tem tido. É verdade que se queixa muito do que vai sofrendo. Mas não se queixa da vida. Eu diria que se resigna, e vive a lamentação própria de quem sabe cada minuto da vida. Que sabe que vivemos enquanto estamos vivos, e que é a Deus que devemos tão grande dom. Apesar de viver nesse mundo das queixas e apesar de desfalecer constantemente com os achaques das doenças que lhe aparecem, eu descubro nela constantemente o dom da vida. Aceita que a vida é isto. Entrega-se nas mãos de Deus como se fossem a melhor almofada para adormecer. Possui um misto de azar e sorte. Um misto de tristeza e de felicidade. Aguenta-se nas canelas, dizendo que o dia está a chegar. Sorri para mim e beija-me fora da barba, que não gosta dela e que perturba a sua face limpa e viçosa. Chego a pensar que a vida da menina Felicidade é um misto de muitas coisas que parecem não ser boas, mas com as quais se vive. 
Um beijinho do tamanho da tua vida, minha menina Felicidade.

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Uma confissão banal

Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final. 
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim. 
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.

domingo, dezembro 31, 2017

passar ou não [poema 166]

O passado
Arde nos olhos e nas entranhas
Remove as águas e seca as fontes

O passado
É a sombra que nos religa
Ao que não quisemos mas foi
Ao que o futuro nos repugna
E repõe.

Desejo a todos os amigos e visitantes um ano cheio da Esperança que brota de Deus!

sexta-feira, dezembro 29, 2017

flores que são pétalas [poema 165]

Contar pétalas, uma a uma, pelo sim pelo não
Escolher as pontas soltas, sem caule
Entre o agora e o agora não

Juntá-las, de novo, para serem flor
Quando já não são mais que pétalas
A secar, pelo sim pelo não
Vou voltar a contar

terça-feira, dezembro 26, 2017

A minha cadeira de rodas

Só me faltou a gargalhada. Foi um sorriso que só eu dei conta. Veio, mais ou menos, na hora em que me pareceu que o mundo estava distante. Que agora era só eu e mais quem me quisesse acompanhar na invisibilidade. Ganhei ânimo ao pensar que vida é muito mais que o que temos de fazer. A vida é estar ou ser. É muito pouco o que fazer. 
Sou padre, é certo. Não tenho a menor dúvida disso. Como também não tenho grandes dúvidas sobre o convite que Deus me fez há tantos anos. O convite que fez a uma pobre criança, meio reguila, meio inconforme. Tantas vezes pensei no porquê de Deus me ter escolhido. Ainda por cima, quando me apercebo das minhas milhentas fragilidades ou vulnerabilidades. 
Estava a ler o livro “Senhor bispo, o pároco fugiu”, uma versão portuguesa do original francês “Monsier, le curé fait sa crise”. As primeiras impressões, sobretudo quando se trata o assunto da canseira administrativa das paróquias, era uma luva em mim. Assentava em cada dedo das minhas mãos. O protagonista, de nome Benjamim, queria refundar o seu sacerdócio, e para isso fugiu de tudo. Creio que fugiu até de si mesmo. Ia lendo e ia pensando que também era um sentimento que vinha a mim muitas vezes. A ideia que formulamos em nós quando decidimos seguir esta vocação anda muito próximo da divinização do sacerdócio. Imaginamo-nos a construir o reino de Deus só com a Palavra de Deus. Ela tem uma força que não cabe em nós, de facto. Mas é na nossa humanidade que ela actua. Não há como fugir disso. Nós padres, é que nos esquecemos, muitas vezes, dessa realidade. A vida não é como imaginamos, mas é um desafio permanente a descobrir como viver.
O padre Benjamim no final do livro foi convidado a ser bispo, apesar de estar sobre uma cadeira de rodas. O que eu me ri das coisas que Deus pode, em verdade, lembrar-se. Ou pelo menos que o autor deste livro colocou na sua vontade. A minha cadeira de rodas é outra. É esta vida sobre a qual me tenho sentado, na esperança de que o mundo gire à minha volta. Mas o mundo não gira. Sou eu que tenho de ir em busca, mesmo em cadeira de rodas. Sou eu que tenho de andar, mesmo que seja dentro de mim, para que cada minuto da minha vida, mesmo a sacerdotal, valha a pena. Por isso me ri tanto, comigo e de mim. Talvez amanhã me levante com o mesmo rosto sombrio de muitos dos meus dias. Mas, pelo menos, agora rio e, como um rio, quero deixar-me levar até ao mar, com um sorriso nos lábios.

sexta-feira, dezembro 22, 2017

Essa noite [poema 164]

Veio na calada e no mais escuro da noite,
Sem notícias ou publicidades, do nada 
Veio na pobreza de uma barraca, sem cidade,
Sem adornos, sem luzes, somente com estrelas

Veio e poucos sabem que veio.
Entrou por uma porta sem entrada, na noite
que eu sou.


Desejo a todos os meus amigos e leitores um Natal repleto, cheio, pleno do Menino Deus!

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Ser padre ou ser Igreja?

Há muito que ando com esta pergunta aos tombos. Há já tanto tempo, como desde que comecei a sentir o que era deveras ser padre. Os primeiros anos do sacerdócio são os anos fantásticos dos sonhos, das esperanças, da vontade de oferecer ou vender a salvação por meia tuta de missas, confissões ou outros sacramentos. Muitas actividades para promover o espírito da comunidade cristã. Muitas conversas entusiásticas sobre um Deus que nos ama. Mas depois, com o tempo, vem a sabedoria da vida, a sabedoria de uma vida que se mantém igual, com pequenas nuances ou pequenos degraus. Esse tempo já la vai um pouco perdido pelo tédio ou pela rotina do nosso sacerdócio. Evito ser pessimista. Vejo ou quero ver tudo como oportunidades e desafios. Mas a pergunta vem e vai, bailando como sereia por um mar desconhecido. São muitos anos contados a fazer uma pergunta que é mais uma questão. Ou uma questão que se desenrola em muitas perguntas. Que Igreja quer Deus? Porque Deus fez assim as coisas? Para que enviou realmente o Seu Filho ao mundo? O que Ele pretende de nós? O que fazemos nós com Deus? E com estas vêm muitas outras perguntas similares, parecidas, mais retocadas ou mais embrulhadas. E todas elas se podem resumir neste desejo que trago em perceber como devo ser Igreja e como posso cumprir a vocação para a qual Deus me convidou. Repito a mim mesmo que não estou a ser pessimista e que, no meu mais íntimo, algo sei da resposta que busco. Talvez recluir-me em mim mesmo fosse a maneira para não me desperdiçar em tanta superficialidade. Mas também sei que não é isso que Deus me quer. É na vida que Ele pretende que eu seja padre e seja Igreja. Talvez o que eu queria era uma Igreja mais fácil, mais simples, mais verdadeira, na qual me pudesse sentir sempre como sou. Talvez consiga responder com mais claridade quando um dia for capaz de desprender-me do meu sacerdócio eu o encontre verdadeiramente. Ou por outras palavras, talvez quando um dia deixe de querer ser tão padre, eu consiga ser mais discípulo e mais Igreja como imagino que Deus sonhou.